sexta-feira, 8 de maio de 2009

Modus operandi

"Nunca deixarmos que as dúvidas nos atormentem. Mas também não nos impedirmos de suscitá-las"


É interessante observar a capacidade que certas pessoas têm de contar histórias. Alguns são capazes mesmo de tornar fatos aparentemente irrelevantes em narrativas que prendem a atenção, quando contados. No outro extremo temos aqueles que conseguem transformar fatos incontestavelmente importantes em discursos de tédio. Dentro do que já foi dito, podemos ver que em ambos os casos, temos a ferramenta de esclarecimento, que é a linguagem, ora bem aplicada, ora negligenciada. O que também pode ser dito, se não for quase o mesmo, é que tal distorção se dá no uso dos jogos de linguagem (dos quais fala com muito mais autoridade Wittgenstein, em suas "Investigações Filosóficas").

Mas a narrativa (o caso contado/escrito) tem mesmo um caráter muito próprio, um estilo pessoal, que seria de fato como o autor usa seus argumentos, joga com a linguagem, em lances de expectativa, repetição, lugares comuns etc, que eu denominaria como autoria. É uma espécie de padrão de como contar adotado por cada um, que o faz da maneira que julga mais eficiente (ou de maneira a atingir seu objetivo, entre outros motivos).

Quando se conta algo, ainda que seja [este algo] o mesmo, não se conta de mesmo modo, pois o modo depende do autor; e quando algo é duas vezes contado, já não é o mesmo.

Imagem: "A casa do enforcado", Cézanne.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Amicus Plato, sed magis amica veritas

Sempre se escreve tanto, sobre tanta coisa. Quero escrever sobre o que ainda não foi escrito. Se a linguagem é uma ferramenta, quero escavar com ela minas ainda inexploradas, recantos escondidos, paraísos perdidos. Mas sobre os meandros do pensamento paira o espectro de que tudo sobre o que se podia escrever, já foi escrito. Falsa impressão! Válida quem sabe para o Latim, e tantas outras línguas mortas. A linguagem se transforma todo o tempo, em todo lugar. Não é estática. Por isso sempre haverá algo para ser escrito. Nunca se poderá escrever tudo sobre o todo. Pois o todo muda – e o modo de se escrever também. Parece-me, portanto, que não há tanto mistério ou dificuldade em escrever algo novo. É, realmente, o óbvio. Escrevemos o novo a todo momento sem perceber. E ainda ficamos procurando um sentido... ora! Se nada nunca é o mesmo. Seria estranho se sentido encontrássemos.

Mas o domínio das ferramentas de linguagem, base de toda esta estrutura, só é válido realmente quando usado para esclarecer (e não para confundir) as coisas (por coisas entendam-se tudo o que pode ser dito/escrito). A linguagem confusa, mas que tinha o objetivo de ser clara, perdoa-se pela boa fé. Quanto a uma linguagem propositalmente confusa, criada para não ser entendida, de fato tem uma função lingüística que sinceramente me escapa.

O ato de escrever, de falar, tem de ser acompanhado de uma intenção esclarecedora. Este é o seu fundamento. A confusão pode ser uma conseqüência, ou dar certo requinte “figurativo” na linguagem, mas não poder ser seu objetivo. Escrever é iluminar o porão escuro, que é o mundo quando desconhecido, com o brilho da compreensão. Sem escapar de sua função emaranhando-se em si mesma, a linguagem existe para facilitar o entendimento. Não existem verdades definitivas quando tudo sempre muda, por isso tal esclarecimento é constante. Talvez uma “missão” que realmente compete à filosofia seja a de que este princípio não se perca. Mas ainda é cedo para dizer algo neste sentido.

Título: (do latim) - Platão é amigo, mas a verdade é mais amiga do que Platão.