quarta-feira, 18 de maio de 2011

1.Criação de conceitos: apontamentos sobre um saber filosófico

O conceito pertence à filosofia e só a ela pertence.” Gilles Deleuze/Félix Guattari


Analisando a filosofia do jovem Hegel, Jean Hyppolite menciona a história da filosofia traçada nas obras do mestre alemão, ressaltando que tal história da filosofia é, ao mesmo tempo, uma filosofia. Ora, o professor do Collège de France, neste trecho, nos leva a dois questionamentos fundamentais: o que é a filosofia, e como distinguir a filosofia de sua própria história. Gilles Deleuze e Félix Guattari, em uma obra pertinentemente entitulada “O que é a filosofia?”, trabalham com estas e muitas outras questões.


As meninas, de Velázquez


Para Deleuze e Guattari, a filosofia consiste em criar conceitos. Tal definição parece tão óbvia que é preciso parar por um instante para pensar o que ela traz de novo. Não era isso o que nos dizia a filosofia analítica há muito tempo? Parece que não. Na filosofia analítica, cabe ao filósofo esclarecer os conceitos, escoimar as confusões linguísticas, pois é disso que se tratam, afinal, os problemas filosóficos tradicionais: confusões conceituais. Aí o filósofo não cria, ele decodifica, e no máximo pode formular uma gramática conceitual:


tal como o gramático, e especialmente o gramático moderno típico, que se esforça por produzir uma análise sistemática da estrutura das regras a que obedecemos, sem dar por isso, quando falamos gramaticalmente, também o filósofo procura produzir uma análise sistemática da estrutura conceitual geral da qual, como mostra a nossa prática diária, temos um domínio tácito e inconsciente. (Strawson)


Na ideia de conceito trabalhado por Deleuze e Guattari, uma “gramática conceitual” seria impossível, pois conceitos não são proposições, não trazem uma carga intencional, não sendo portanto passíveis de referência, já que a filosofia, diferente da ciência, procede por um plano de imanência, de potencialidade: “Os conceitos são centros de vibrações, cada um em si mesmo e uns em relação aos outros. É por isso que tudo ressoa, em lugar de se seguir ou de se corresponder“, ou seja,”mesmo as pontes, de um conceito a um outro, são ainda encruzilhadas, ou desvios que não circunscrevem nenhum conjunto discursivo.”


Encarar os conceitos como proposições é o que costuma ocorrer com os lógicos, o que justifica a “idéia infantil” que a lógica faz da filosofia.


Medem-se os conceitos por uma gramática "filosófica" que os substitui por proposições extraídas das frases onde eles aparecem: somos restringidos sempre a alternativas entre proposições, sem ver que o conceito já foi projetado no terceiro excluído. O conceito não é, de forma alguma, uma proposição, não é proposicional.


Para trabalhar com proposições é preciso estar no plano da referência, da correspondência, o que é muito pertinente ao discurso científico, que trabalha com conjuntos correlatos, não com conceitos: “É uma longa série de mal entendidos sobre o conceito. É verdade que o conceito é confuso, vago, mas não porque não tem contorno: é porque ele é vagabundo, não-discursivo, em deslocamento sobre um plano de imanência.”


O que geralmente se aprende, no meio acadêmico em geral, é a história da filosofia. O ensino da filosofia, não só partindo do conceito de Deleuze e Guattari, mas tendo por base mesmo outras perspectivas, parece algo um tanto mais difícil. Quanto a ensinar a filosofar efetivamente, teríamos de pensar até que ponto isso é realmente possível. Enfim, resta pensar a diferença entre a filosofia e sua história. Se a filosofia consiste em inventar conceitos, não se pode reduzi-la a sua própria história, alertam Deleuze e Guattari, pois a filosofia não para de se arrancar dessa história para criar novos conceitos, “que recaem na história, mas não provém dela”. São breves apontamentos, que permitem o início – apenas o início – de um esclarecimento, mas que propõem sobretudo uma fuga do atual estado em que nos encontramos, muitas vezes de pseudoquestionamento, ou mesmo de acovardamento cognitivo.


Definitivamente, resta pensar o que a história da filosofia pode nos ensinar, não somente ensinar o que é a filosofia, em que consistem seus discursos através do tempo, mas se essa história é capaz de ser uma ferramenta para a construção de um saber filosófico contemporâneo. O que os pensadores gregos, por exemplo, podem nos dizer sobre fazer filosofia, se é que eles o faziam? Como a compreensão do filosofar grego pode levar ao nosso próprio filosofar?



Referências

Introdução à filosofia da história em Hegel, de Jean Hyppolite

O que é a filosofia?, de Gilles Deleuze e Félix Guattari

O ato de criação, de Gilles Deleuze

Análise e Metafísica: Uma Introdução à Filosofia, de Peter F. Strawson


Ensaio criado a partir do texto postado no blog Clichê Infausto, de autoria de Cláudio Carneiro: "Durkheim, Deleuze e a Filosofia: quebrando o senso comum (pseudo)acadêmico".

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Modus operandi

"Nunca deixarmos que as dúvidas nos atormentem. Mas também não nos impedirmos de suscitá-las"


É interessante observar a capacidade que certas pessoas têm de contar histórias. Alguns são capazes mesmo de tornar fatos aparentemente irrelevantes em narrativas que prendem a atenção, quando contados. No outro extremo temos aqueles que conseguem transformar fatos incontestavelmente importantes em discursos de tédio. Dentro do que já foi dito, podemos ver que em ambos os casos, temos a ferramenta de esclarecimento, que é a linguagem, ora bem aplicada, ora negligenciada. O que também pode ser dito, se não for quase o mesmo, é que tal distorção se dá no uso dos jogos de linguagem (dos quais fala com muito mais autoridade Wittgenstein, em suas "Investigações Filosóficas").

Mas a narrativa (o caso contado/escrito) tem mesmo um caráter muito próprio, um estilo pessoal, que seria de fato como o autor usa seus argumentos, joga com a linguagem, em lances de expectativa, repetição, lugares comuns etc, que eu denominaria como autoria. É uma espécie de padrão de como contar adotado por cada um, que o faz da maneira que julga mais eficiente (ou de maneira a atingir seu objetivo, entre outros motivos).

Quando se conta algo, ainda que seja [este algo] o mesmo, não se conta de mesmo modo, pois o modo depende do autor; e quando algo é duas vezes contado, já não é o mesmo.

Imagem: "A casa do enforcado", Cézanne.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Amicus Plato, sed magis amica veritas

Sempre se escreve tanto, sobre tanta coisa. Quero escrever sobre o que ainda não foi escrito. Se a linguagem é uma ferramenta, quero escavar com ela minas ainda inexploradas, recantos escondidos, paraísos perdidos. Mas sobre os meandros do pensamento paira o espectro de que tudo sobre o que se podia escrever, já foi escrito. Falsa impressão! Válida quem sabe para o Latim, e tantas outras línguas mortas. A linguagem se transforma todo o tempo, em todo lugar. Não é estática. Por isso sempre haverá algo para ser escrito. Nunca se poderá escrever tudo sobre o todo. Pois o todo muda – e o modo de se escrever também. Parece-me, portanto, que não há tanto mistério ou dificuldade em escrever algo novo. É, realmente, o óbvio. Escrevemos o novo a todo momento sem perceber. E ainda ficamos procurando um sentido... ora! Se nada nunca é o mesmo. Seria estranho se sentido encontrássemos.

Mas o domínio das ferramentas de linguagem, base de toda esta estrutura, só é válido realmente quando usado para esclarecer (e não para confundir) as coisas (por coisas entendam-se tudo o que pode ser dito/escrito). A linguagem confusa, mas que tinha o objetivo de ser clara, perdoa-se pela boa fé. Quanto a uma linguagem propositalmente confusa, criada para não ser entendida, de fato tem uma função lingüística que sinceramente me escapa.

O ato de escrever, de falar, tem de ser acompanhado de uma intenção esclarecedora. Este é o seu fundamento. A confusão pode ser uma conseqüência, ou dar certo requinte “figurativo” na linguagem, mas não poder ser seu objetivo. Escrever é iluminar o porão escuro, que é o mundo quando desconhecido, com o brilho da compreensão. Sem escapar de sua função emaranhando-se em si mesma, a linguagem existe para facilitar o entendimento. Não existem verdades definitivas quando tudo sempre muda, por isso tal esclarecimento é constante. Talvez uma “missão” que realmente compete à filosofia seja a de que este princípio não se perca. Mas ainda é cedo para dizer algo neste sentido.

Título: (do latim) - Platão é amigo, mas a verdade é mais amiga do que Platão.