“O conceito pertence à filosofia e só a ela pertence.” Gilles Deleuze/Félix Guattari
Analisando a filosofia do jovem Hegel, Jean Hyppolite menciona a história da filosofia traçada nas obras do mestre alemão, ressaltando que tal história da filosofia é, ao mesmo tempo, uma filosofia. Ora, o professor do Collège de France, neste trecho, nos leva a dois questionamentos fundamentais: o que é a filosofia, e como distinguir a filosofia de sua própria história. Gilles Deleuze e Félix Guattari, em uma obra pertinentemente entitulada “O que é a filosofia?”, trabalham com estas e muitas outras questões.
As meninas, de Velázquez
Para Deleuze e Guattari, a filosofia consiste em criar conceitos. Tal definição parece tão óbvia que é preciso parar por um instante para pensar o que ela traz de novo. Não era isso o que nos dizia a filosofia analítica há muito tempo? Parece que não. Na filosofia analítica, cabe ao filósofo esclarecer os conceitos, escoimar as confusões linguísticas, pois é disso que se tratam, afinal, os problemas filosóficos tradicionais: confusões conceituais. Aí o filósofo não cria, ele decodifica, e no máximo pode formular uma gramática conceitual:
tal como o gramático, e especialmente o gramático moderno típico, que se esforça por produzir uma análise sistemática da estrutura das regras a que obedecemos, sem dar por isso, quando falamos gramaticalmente, também o filósofo procura produzir uma análise sistemática da estrutura conceitual geral da qual, como mostra a nossa prática diária, temos um domínio tácito e inconsciente. (Strawson)
Na ideia de conceito trabalhado por Deleuze e Guattari, uma “gramática conceitual” seria impossível, pois conceitos não são proposições, não trazem uma carga intencional, não sendo portanto passíveis de referência, já que a filosofia, diferente da ciência, procede por um plano de imanência, de potencialidade: “Os conceitos são centros de vibrações, cada um em si mesmo e uns em relação aos outros. É por isso que tudo ressoa, em lugar de se seguir ou de se corresponder“, ou seja,”mesmo as pontes, de um conceito a um outro, são ainda encruzilhadas, ou desvios que não circunscrevem nenhum conjunto discursivo.”
Encarar os conceitos como proposições é o que costuma ocorrer com os lógicos, o que justifica a “idéia infantil” que a lógica faz da filosofia.
Medem-se os conceitos por uma gramática "filosófica" que os substitui por proposições extraídas das frases onde eles aparecem: somos restringidos sempre a alternativas entre proposições, sem ver que o conceito já foi projetado no terceiro excluído. O conceito não é, de forma alguma, uma proposição, não é proposicional.
O que geralmente se aprende, no meio acadêmico em geral, é a história da filosofia. O ensino da filosofia, não só partindo do conceito de Deleuze e Guattari, mas tendo por base mesmo outras perspectivas, parece algo um tanto mais difícil. Quanto a ensinar a filosofar efetivamente, teríamos de pensar até que ponto isso é realmente possível. Enfim, resta pensar a diferença entre a filosofia e sua história. Se a filosofia consiste em inventar conceitos, não se pode reduzi-la a sua própria história, alertam Deleuze e Guattari, pois a filosofia não para de se arrancar dessa história para criar novos conceitos, “que recaem na história, mas não provém dela”. São breves apontamentos, que permitem o início – apenas o início – de um esclarecimento, mas que propõem sobretudo uma fuga do atual estado em que nos encontramos, muitas vezes de pseudoquestionamento, ou mesmo de acovardamento cognitivo.
Definitivamente, resta pensar o que a história da filosofia pode nos ensinar, não somente ensinar o que é a filosofia, em que consistem seus discursos através do tempo, mas se essa história é capaz de ser uma ferramenta para a construção de um saber filosófico contemporâneo. O que os pensadores gregos, por exemplo, podem nos dizer sobre fazer filosofia, se é que eles o faziam? Como a compreensão do filosofar grego pode levar ao nosso próprio filosofar?
Referências
Introdução à filosofia da história em Hegel, de Jean Hyppolite
O que é a filosofia?, de Gilles Deleuze e Félix Guattari
O ato de criação, de Gilles Deleuze
Análise e Metafísica: Uma Introdução à Filosofia, de Peter F. Strawson
Ensaio criado a partir do texto postado no blog Clichê Infausto, de autoria de Cláudio Carneiro: "Durkheim, Deleuze e a Filosofia: quebrando o senso comum (pseudo)acadêmico".

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